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Bucelas, Carcavelos e Colares, os três históricos da região vitivinícola de Lisboa

e 31 Denominações de Origem Controlada (DOC). Só no “nariz”, que é como quem diz, na região de Lisboa, há nove DOC, entre elas Bucelas, Carcavelos e Colares. A primeira, exclusiva de vinhos brancos, vem citada numa peça de Shakespeare; a segunda, a mais pequena de todas, é dona de um fortificado dourado e marítimo; e a terceira tem vinhas rastejantes, que se não forem únicas serão certamente raras no mundo.

O salino Carcavelos

da : Parece difícil conceber tal diversidade num pedaço de chão tão circunscrito, mas é isso também o terroir. E é por isso que Alexandre, que trabalha há 18 anos na Adega Casal Manteiga, com os vinhos da Villa Oeiras, faz questão de nos plantar defronte às vinhas para lhes percebermos o carácter e os caprichos que vão dar origem ao tão apreciado Vinho de Carcavelos.

da SLOTS: “As vinhas estão dispostas em declives relativamente suaves e expostas a todas as horas do sol”, diz, fazendo uma curva com o braço de Este para Oeste, a mimetizar o ciclo solar. “Isso confere-lhes uma capacidade de fotossíntese fortíssima e um potencial de maturação superior.”

Graças ao vento que vem da serra de Sintra, preservam a sua doçura natural sem sucumbirem ao calor extremo. À noite, a maresia acaricia-lhes os bagos, dando-lhes um toque de salinidade. “Costumo dizer que estas vinhas são como uma princesa de cabelos dourados, a fazer um spa oceânico para hidratar a pele.” A seu lado, o cão Galego, cujo nome alude à casta Galego Dourado (que com a Ratinho e o Arinto compõem a base deste fortificado), anui, abanando a cauda.

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Em prova, o nariz aguça-se e as papilas ficam aos saltinhos, tal como ficariam com um generoso pedaço de caramelo salgado. “O Vinho de Carcavelos é inusitado: começa doce e acaba seco”, resume Alexandre. Pode ser mais redondo e rico em especiarias, se estagiar em carvalho francês, ou mais directo e alcoólico, se utilizado o carvalho português, experiências que a Villa Oeiras tem feito para criar lotes bem equilibrados nos seus 7 e 15 anos (25 e 40 euros, respectivamente).

O carácter experimental está, aliás, na génese deste projecto público que, para além da Adega Casal Manteiga, integra também o antigo Palácio do Marquês de Pombal. Foi no século XVIII, precisamente com o Marquês de Pombal, que o Vinho de Carcavelos atingiu o seu auge. Seguiu-se um período de declínio, agravado no século XX, por culpa de doenças como o míldio e a filoxera e também da especulação imobiliária.

Quando tudo levava a crer que este fortificado estava fatalmente condenado, a Estação Agronómica Nacional e o município de Oeiras iniciaram, nos anos 1980, um plano de recuperação e replantação da vinha. De lá para cá, a marca Villa Oeiras tem vindo a consolidar Carcavelos como uma referência nacional e internacional, embarcando em aventuras como a da The Guitar Barrel Project.

Alexandre Eurico conta-nos a história: em 2018, o luthier português Adriano Sérgio comprou oito toneladas de madeira de mogno oitocentista, que viria a descobrir terem servido para estagiar Vinho de Carcavelos no Palácio do Marquês de Pombal. Sabendo deste facto, a Adega Casal Manteiga adquiriu um lote, transformou-o em duas pipas e reservou lá o seu Villa Oeiras Colheita 2010 Mogno (225 euros). “A madeira, densa, deu cor e aromas ao vinho.” A restante madeira foi utilizada para construir seis guitarras de autor, uma das quais assinada pelo luthier dos Led Zepplin, Andy Manson.

A teimosia de Colares

Cantarolando Stairway to Heaven, deixámos Carcavelos para trás com a nobre missão de trepar até à serra de Sintra. À nossa espera estava Hélder Cunha, da Cascas Wines, o enólogo e produtor que outrora ouvira do chef britânico Gordon Ramsay que os vinhos de Colares estavam ao nível dos melhores de Borgonha. “Queremos mostrar ao mundo o quão especial isto é.”

Parte do mundo terá visto isso mesmo, na terceira temporada de Gordon Ramsay: Uncharted, da National Geographic, mas nada bate a experiência de pousar os pés em Colares e testemunhar como as vinhas se arrastam por aquele solo arenoso, quais tentáculos de polvo, agarrando-se à vida a custo, contra ventos, neblinas e marés atlânticas.

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Aquando da criação da Adega Cooperativa de Colares, em 1931, a região chegou a ter 10 mil hectares de vinha. Agora tem apenas cerca de 20. Não só a construção imobiliária ganhou terreno aos campos, como muitos agricultores se foram desencantando com a actividade.

Hoje existem 11 proprietários agrícolas, três dos quais trabalham com Hélder Cunha. A produção da Casca Wines, em Colares, é por isso escassa. Anualmente, são lançadas cerca de 1.000 garrafas do Monte Cascas: 400 de Malvasia de Colares (branco) e 600 de Ramisco (tinto). As colheitas que agora estão no mercado são as de 2017 (109 euros) e de 2013 (130 euros), respectivamente.

O que justifica, então, o emprego de tanto esforço para um volume de produção tão reduzido e que leva um longo período de estágio antes de chegar ao consumidor? Hélder Cunha não vacila: é a “raridade” desta região e o quão sublimes são os seus vinhos que o faz abraçar este projecto de corpo e alma.

Prima afastada da Pinot Noir, explica o produtor, a Ramisco é uma casta aparentemente rude, como um faroleiro endurecido pela solidão e pelo mar. Na boca, os seus taninos vincados eriçam-nos o palato, mas a generosidade e a fineza que se seguem chegam a ser comoventes. Os maneirismos ásperos escondem um coração delicado, escondem, lá ao fundo, uma cereja madura que não esperaríamos encontrar.

Já a Malvasia de Colares tem maçã reineta (a maçã rainha de Sintra), acidez e maresia na sua estrutura. A forma como repousa em boca é igual ao repouso de um guerreiro, chegado a casa depois de uma longa batalha. Provar estes vinhos a olhar para o Cabo da Roca é talvez a mais poética e épica maneira de o fazer. Se for com um romance de Eça de Queiroz ao lado, melhor ainda. Não há ninguém que tenha dedicado tantos louvores a Colares como o escritor português.

Afamada Bucelas

Já o vinho de Bucelas teve honras shakespearianas na peça Henrique VI, onde vem referido como charneco. “Até ao século XIX, o vinho de Bucelas era o vinho branco mais famoso de Portugal. Diz-se até que o rei Jorge III, de Inglaterra, o bebia como medicamento”, conta Franck Bodin, proprietário da Quinta da Murta. Numa das delimitações da quinta, é ainda visível uma estrada romana antiga, vestígios da civilização que introduziu a cultura da vinha nestes terrenos, a cerca de 30 quilómetros do centro de Lisboa.

A fama antiga de Bucelas advém da Arinto, uva de bago pequeno e de cacho gordo e compacto. Em Portugal Vinícola, obra apresentada em 1900 na Exposição Universal de Paris, o autor Cincinnato da Costa descreve a casta como uma das “mais notáveis de Portugal” e a base dos “delicadíssimos vinhos de Bucellas, os melhores vinhos de pasto branco do paiz, que rivalizam com as mais finas lavras de Sauternes e Barsac”.

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Qualquer apaixonado por História e pela cultura do vinho ficaria radiante com estes dados, tal como ficara Franck Bodin. Daí que, em 2012, este engenheiro agrónomo francês tenha chegado a Portugal com a firme intenção de adquirir uma propriedade em Bucelas. Foi assim que o seu destino se cruzou com o do da Quinta da Murta.

Uma das suas primeiras medidas foi a de patentear a marca “The Wine of Shakespeare”, que agora está nos rótulos do Arinto DOC Bucelas (8 euros), do Arinto Tradition DOC Bucelas (14 euros) e do Espumante Brut Nature (15 euros). Vinhos brancos com elevada acidez, aroma frutado e boa complexidade.

Embora a casta se tenha popularizado um pouco por todo o país, é em Bucelas que melhor se expressa. Ali, está suficientemente protegida do mar para não levar directamente com as suas iras, e, ao mesmo tempo, suficientemente próxima para assimilar algumas notas oceânicas, ou não estivessem os solos pejados de fósseis marinhos. Harmonizados com queijos fortes, sushi ou pratos de bacalhau, estes vinhos são capazes de fazer soltar outras quantas histórias e curiosidades de muitas boas línguas. Se em verso, drama ou prosa, a inspiração do provador assim o ditará.